© May 1, 2001, Folha de Sao Paulo (Brazil)

LIVRO VIVO

Softs que inserem efeitos visuais e sons em poemas turbinam obras de escritores; arte começou com o "MS-DOS"

Poemas saem do papel e caem na internet
ALEXANDRE VERSIGNASSI
DA REPORTAGEM LOCAL

Se romances, contos e biografias, aos poucos, estreitam seus laços com a rede, o mesmo acontece com a poesia. E, como nessa forma de arte literária é comum a adição de elementos gráficos aos textos, programas de efeitos visuais, como o "Flash" e o "Shockwave", além de outros aplicativos, dão uma força para artistas que usam o micro para elaborar e divulgar seus trabalhos.
"A poesia digital está crescendo. Agora há mais softwares, além de a potência dos computadores ter aumentado bastante. Ficou mais fácil programar, inserir elementos visuais e sons nos poemas", diz o americano Loss Pequeño Glazier, poeta digital e diretor do Electronic Poetry Center (Centro de Poesia Eletrônica), ou EPC, que fica em um campus da State University of New York localizado na cidade de Buffalo, nos EUA.
No mês passado, Glazier organizou o festival de poesia digital E-poetry 2001, que reuniu dezenas de artistas de todo o planeta.
O evento serviu para que poetas mostrassem seus trabalhos digitais e trocassem experiências. "A idéia de fazer poesias em um novo espaço, a tela do micro, é algo que me empolga: há muitos trabalhos novos, feitos por gente jovem, sendo desenvolvidos nessa área", diz Thomas Swiss, expositor do E-poetry e professor de inglês da Drake University, nos EUA.
Alguns de seus trabalhos digitais, que mesclam textos com imagens em "Flash", podem ser vistos em www.drake.edu /swiss/ultimate/home.html.
Entre os jovens ciberpoetas citados por Swiss, está Nazura Zahian, uma garota de 20 anos que mora na Malásia e que também fez parte do E-poetry. "Em meus trabalhos, uso música malasiana e letras que se movem", diz. Os poemas de Zahian estão em www.geocities.com/malaypoet.

Idade da pedra
Apesar de turbinada pelos softwares mais recentes, a ciberpoesia existe desde a época em que os micros tinham telas monocromáticas e ainda estavam longe de conhecer a internet. "Faço poemas digitais há quase 20 anos", afirma Glazier, o diretor do EPC. "Como havia poucos programas na época, o melhor que eu podia fazer era usar o "WordStar" [editor de textos dos anos 80 que antecedeu o "Word'" e outros programas para "MS-DOS"."
Nos anos 90, programas para "Windows", como o editor de imagens "Photoshop" e o soft para animação de imagens "GIF Animator" começaram a ganhar terreno. "Hoje, uso as linguagens de programação "JavaScript" e "XML", além de softs como o editor de sites "Dreamweaver'", diz Glazier. Seus trabalhos estão em http://epc.buffalo.edu/authors/glazier, na seção Digital Poetry.

Na rede
Quem quiser conhecer mais da poesia digital que está na rede pode visitar o site http://epc.buffalo.edu/authors/epc.html, que traz um índice de ciberpoetas organizado pelo EPC, e o www.ubu.com/artistindex.html, que reúne a obra de dezenas de artistas divididas por época e por tema.

Brasileira tem poemas virtuais na rede
DA REPORTAGEM LOCAL

Entre os expositores do E-poetry (leia texto ao lado) estava a ciberpoeta brasileira Giselle Beiguelman, 38, historiadora e editora de sites. Ela desenvolve projetos literários para a rede desde 1998 e sua obra mais recente, chamada "Recycled" (reciclado), pode ser vista em www.desvirtual.com/recycled. Trata-se de uma espécie de caldeirão on-line: o conteúdo do site é sempre reorganizado. Ou seja: um mesmo índice nunca levará a uma mesma página, segundo Beiguelman. "Quando o leitor percorre as páginas do site em ordens diferentes, a leitura adquire novos sentidos", afirma.
Outro trabalho de Giselle está em www.desvirtual.com/nocache. Nessa poesia eletrônica, ela brinca com as falhas de navegação mais comuns. Por exemplo: ao clicar em um item chamado 404 (um dos códigos para "página não encontrada"), o internauta vê frases de desconsolo e inúmeras mensagens de erro que pulam de forma caótica na tela.

Código aberto
Em suas ciberpoesias, Beiguelman usa apenas linguagens de programação de código aberto (que podem ser copiadas livremente). "Fazer parte da internet é poder compartilhar arquivos, ser copiado e reciclado", diz.